
Ai, dona fea, foste-vos queixar
que vos nunca louv'en (o) meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
en que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!
Dona fea, se Deus me perdon,
pois avedes (a) tan gran coraçon
que vos eu loe, en esta razon
vos quero já loar toda via;
e vedes qual será a loaçon:
dona fea, velha e sandia!
Dona fea, nunca vos eu loei
en meu trobar, pero muito trobei;
mais ora já un bon cantar farei,
en que vos loarei toda via;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!
Joan Garcia de Guilhade, CV 1097, CBN 1486
I
1. Explicite o assunto da cantiga que acabou de ler.
2. De que modo é que o trovador se serve da ironia?
3. Contraponha o louvor do trovador à «dona fea» e o louvor de outros trovadores à sua «senhor».
4. Insira esta cantiga no género a que pertence, justificando.
5. Compare a crítica social feita pelos poetas medievais com a crítica social feita por um ou mais autores posteriores.
6. Faça uma análise da estrutura externa desta cantiga.
II
Numa composição cuidada, comente a seguinte afirmação de Luís de Sousa Rebelo:
«Entre nós a sátira abdica da sua função social e correctiva, sendo em número pequeno as composições em que ele aborda assuntos de interesse geral. Renuncia, assim, a orientar uma corrente de opinião, a ser uma arma de luta política, fragmentando-se numa crítica individual e subjectiva».